Gritzbach detalhou extorsão de R$ 30 milhões por policiais civis

Gritzbach detalhou extorsão de R$ 30 milhões por policiais civis

O assassinato de Antônio Vinícius Gritzbach, corretor de imóveis, chocou a sociedade e trouxe à tona graves denúncias sobre práticas de corrupção policial. Quatro meses antes de sua execução no Aeroporto Internacional de Guarulhos, ele gravou um depoimento em vídeo onde detalhou um suposto esquema de extorsão envolvendo policiais civis do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). O registro foi feito durante o processo de sua colaboração premiada com o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e trouxe acusações de cobranças milionárias e apropriação indevida de bens por parte de agentes do Estado.

A dinâmica da extorsão revelada por Gritzbach ocorreu enquanto ele estava sob custódia em fevereiro de 2022, durante investigações de homicídios relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As acusações foram direcionadas ao delegado Fábio Baena e ao chefe de investigadores Eduardo Monteiro. Segundo Gritzbach, o delegado Baena sugeriu que ele contratasse um advogado específico, o que inicialmente lhe pareceu uma opção segura.

Entretanto, dias após a contratação do advogado Ivelson Saloto, o corretor foi informado sobre a cobrança exorbitante de R$ 30 milhões a R$ 40 milhões. A justificativa seria a suposta existência de um pendrive com informações valiosas sobre criptomoedas, algo que Gritzbach negou categoricamente. A pressão psicológica foi tamanha que ele chegou a autorizar o advogado a oferecer todos os seus bens, calculando entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, na esperança de evitar a prorrogação da prisão. Infelizmente, a oferta foi recusada pela polícia, que alegou que a aceitação de valores de outras fontes tornava impossível a liberação do corretor, mesmo que a quantia total de R$ 30 milhões fosse paga.

Detalhes da Confissão de Gritzbach

Para dar respaldo às suas acusações, Gritzbach entregou aos promotores várias provas, incluindo áudios e documentos que demonstravam a apropriação dos seus bens pessoais sem a devida formalidade. Um dos bens em questão foi um sítio em Biritiba Mirim, avaliado em R$ 1,5 milhão. Embora o imóvel estivesse formalmente registrado em nome do dentista Roberto Vioto, Gritzbach provou ser o verdadeiro proprietário e contou que o contrato da propriedade foi apreendido de forma informal durante uma busca em sua residência. O policial Rogerinho, que fazia parte da equipe de Baena, chegou a comercializar a propriedade dessa forma irregular, com Gritzbach recebendo um aviso do chefe dos investigadores para que agisse rapidamente na venda do sítio para evitar a perda da propriedade para outros policiais.

Além do sítio, Gritzbach denunciou o desaparecimento de quatro relógios da marca Hublot, que juntos totalizavam cerca de R$ 180 mil. Ele relatou que 14 relógios de luxo foram levados durante sua prisão, mas apenas 10 foram devolvidos. Os quatro restantes acabaram guardados no armário do investigador Monteiro e, posteriormente, o corretor foi informado que estes já estavam sendo vendidos no mercado paralelo, sem a devida documentação legal justificando a apreensão inicial.

Consequências das Denúncias

Mesmo após seu trágico assassinato, a delação de Gritzbach se tornou um elemento central nas investigações para desmantelar a infiltração de agentes públicos no crime organizado. A partir dessas informações, uma operação conjunta da Polícia Federal e do MPSP ocorreu em 17 de dezembro de 2024, resultando na prisão do delegado Baena e do investigador Monteiro. O policial Rogerinho, que estava foragido, se entregou poucos dias depois, o que chamou ainda mais atenção para o caso.

Recentemente, em março de 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, decidiu revogar a prisão preventiva de Fábio Baena. O delegado foi liberado sob condições rigorosas, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e o pagamento de fiança no valor de R$ 100 mil, além do afastamento definitivo de suas funções públicas. Tal decisão levanta questionamentos sobre a efetividade do combate à corrupção e à criminalidade dentro das forças de segurança pública.

Reflexões Finais sobre a Corrupção Policial

As revelações feitas por Antônio Vinícius Gritzbach não apenas expõem um padrão de corrupção dentro da polícia, mas também ressaltam a necessidade urgente de medidas efetivas para prevenir e punir tais práticas. A desconfiança crescente da sociedade em relação à segurança pública exige ações decisivas para restaurar a confiança nas instituições. A luta contra a corrupção dentro das forças de segurança é essencial para o fortalecimento do Estado de direito e a proteção dos cidadãos.

O caso de Gritzbach é um lembrete sombrio de que a corrupção pode estar enraizada em setores que deveriam ser responsáveis pela proteção da sociedade, e que a accountability se faz mais do que necessária nesta batalha contínua.